O rebanho de que fazemos parte…

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Já 12 primaveras tinham passado à frente dos meus olhos. O cenário? 8 horas da manhã na sala de aula do 7ºano B. Podemos dizer que eu ainda era uma criança, embora a curiosidade não me desse descanso entre cada assalto. Após o ensonado cumprimento matinal entre o professor e os seus pupilos, ouvi as primeiras palavras sobre a matéria que iria ser lecionada na hora e meia que se seguia “a origem do Universo: o Big Bang”. De imediato, a reacção assustada, como se um urso tivesse acabado de entrar pela janela: a minha boca não foi capaz de se conter, proferindo a seguinte ideia aos meus botões “não fazia ideia que o professor era assim tão velho para se lembrar deste acontecimento”.

Durante essa hora e meia, o tal Big Bang, e todos os seus amigos, foram devidamente apresentados como uma certeza incontestável, como se de uma verdade absoluta se tratassem. Ainda assim… havia um pequeníssimo pormenor, que me confundia, no meio de tanto conhecimento – a palavra “TEORIA”.

Devo dizer que fiquei espantado pela forma como esta teoria nos foi lecionada. Não compreendia como era possível estarem-nos a dar como garantido algo que ninguém tem 100% certeza, e ninguém se questionar em relação a isso. É que nem sequer nos disseram “baseado no conhecimento actual, esta é a explicação mais plausível”.

Então, vejamos a minha teoria: se houver uma gaivota que acasale com um porco (algo que apesar de nunca ter acontecido, poderia ser tido como possibilidade; nunca se sabe que perturbações existem no reino animal), e se tiverem porquinhos com asas; e se os porquinhos voarem, genericamente, pode-se dizer que os porcos podem voar. Reparem, usei apenas frases simples, com proposições iniciais aparentemente não impossíveis, para chegar a uma conclusão absolutamente ridícula. É através deste disparate que conseguimos comprovar o primeiro problema de qualquer teoria, o role de “se’s” que é necessário para formular a sua explicação.

E é aqui que o método científico, como todas as religiões, nos respondem à letra, dizendo “é possível comprovar que não foi/é/será assim? Então é impossível verificar que não é verdade!”. A partir do momento em que realizamos uma observação lógica e tomamos certas premissas como verdadeiras, é impossível afirmar que não é verdade. Pois bem, pergunto-vos então se alguma vez viram uma gaivota a tentar acasalar com um porco? Não, pois não? Então até lá, não me digam que não podem existir porcos voadores.

Chegámos ao ponto que escapa a tudo e a todos quando afirmamos o que nos ensinaram, sem pensar previamente: a diferença entre uma verdade e uma “não mentira”. Pois uma verdade é algo que conseguimos comprovar de alguma maneira, sabendo sempre que a probabilidade de cada passo que é dado para a atingir é de 100% – um iceberg inteiro. Enquanto uma “não mentira”, é a simples ausência de verdades que comprovem que algo é falso – uma ponta do iceberg. Existe, está lá, mas não podemos dizer que estamos a ver tudo.

A história de Galileu Galilei serve como exemplo. Se o sol de manhã se encontrava num sítio, e à tarde noutro, a terra ser o centro do universo até faria sentido. Nada nesta lógica estava errado. Excepto, que ignoravam o quadro completo. Lá está, só viam a ponta do iceberg. Por isso, ao aparecer alguém com uma nova teoria que, subitamente, diz “e se a terra rodar à volta do sol?”, foi obviamente apelidado de maluco por tudo e por todos. Agora, sabemos que o maluco é que tinha razão, sabemos que ele sim, viu o plano completo.

Não tenciono desrespeitar a crença de ninguém, pois é verdade que todo o ser humano necessita de dogmas para desmistificar e compreender o desconhecido, sendo chamar-lhe ovo cósmico, homem barbudo ou mulher com oito braços.

Vamos pôr da seguinte forma, na manhã de Natal as prendas apareciam lá postas, e todos afirmavam ter sido pelo Pai Natal. Conjunto de frases verdadeiras, simples que levam a uma premissa lógica capaz de ser verdade. Uma ponta do iceberg. Mas todos nós também começámos a levantar questões sobre este mítico ser: como é que está em todas as casas ao mesmo tempo? Como acerta nos presentes de uns, e falha redondamente no dos outros? Como é que as renas vencem a gravidade? E como é que entra nos prédios sem janelas? Iceberg completo.

Por isso, não percam essa curiosidade interior. Questionem-se. E questionem o pastor. Afinal, querem ser mais uma ovelha no rebanho, ou a ovelha negra que faz o mundo andar em frente?

Texto de Manuel Félix
Ilustração de Matilde Félix

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